terça-feira, 19 de agosto de 2008

Símbolo da arte do kung fu, templo Shaolin sofre processo de modernização


Símbolo da arte do kung fu, templo Shaolin sofre processo de modernização.


Gilles van Kote e Olivier Montalba
Monge Shi Yan Kai demonstra postura de kung fu em frente ao Templo Shaolin.
Em PequimYu Liting tem 7 anos e, por trás das suas atitudes de menino sapeca, uma verdadeira determinação. "Ele quer tornar-se um grande mestre", diz em voz baixa Shi Xingsheng, que cuida dele como se ele fosse o seu irmão primogênito. Shi Xingsheng tornou-se mestre de kung fu, após ter passado quinze anos aprendendo esta arte marcial chinesa numa escola situada perto do mosteiro de Shaolin, o mais retirado e secreto dos locais dedicados à sua prática. O jovem mestre e o aprendiz estiveram em Paris, em março, por ocasião de uma dessas turnês rotuladas com a denominação de "Shaolin". Promovidos todos os anos ou quase, esses eventos destinam-se a fazer a demonstração, para os espectadores europeus estressados, das vantagens do wushu (as artes marciais chinesas em geral) para o corpo e para a mente. A fascinação ocidental pelo kung fu remonta aos anos 1970, quando esta arte marcial deu o seu nome a um seriado americano inspirado nos ensinamentos de Shaolin. Na época, "Pequeno Escaravelho", o discípulo de um grande mestre de kung fu, que se tornara adulto sob os traços do ator David Carradine, impressionou uma geração inteira de telespectadores, essencialmente masculinos. Contudo, naquela época, pouquíssima coisa restava do mosteiro, que havia sido fechado e saqueado pelo Guardas Vermelhos, durante a revolução cultural, e apenas um pequeno grupo de monges idosos mantinha com grandes dificuldades a chama acesa quando ele foi reaberto, em 1979.

Tudo mudou de vez em 1982 com o sucesso mundial de um filme com Jet Li, "O Templo de Shaolin"... e com a chegada ao templo de um jovem novato de 16 anos chamado Shi Yongxin. O adolescente não demorou a chamar a atenção do então superior de Shaolin, o abade Xingsheng, que lhe confiou a missão de renovar o mosteiro e de arrecadar fundos para financiar as obras. Estávamos em 1987: Shi Yongxin encontrava-se aos 22 anos à frente do templo de Shaolin. A sua habilidade em cultivar amizades (fosse com David Carradine ou com os caciques do Partido) funcionou às mil maravilhas e permitiu projetar o templo no mundo moderno.Vinte anos mais tarde, a simples referência ao nome de Shaolin faz brilharem os olhos de dezenas de milhares de jovens chineses, que sonham em tornar-se um dia a estrela de um filme de kung fu. Além disso, a cidade vizinha de Dengfeng, na província central do Henan, tornou-se "a cidade do wushu, da mesma forma que Las Vegas tornou-se a dos cassinos", garante Frédéric Pinlet, um professor de kung fu e o presidente do Dragão Azul, uma associação "para a promoção das artes marciais chinesas na França".Dengfeng conta atualmente uma centena de escolas de artes marciais, e cerca de 30.000 estudantes (ou seja, quase a metade da sua população), dos quais os mais novos têm mais ou menos a idade de Yu Liting. "Durante o dia, centenas de moleques treinam nas esplanadas, na frente das escolas", conta Frédéric Pinlet, que esteve no local em cerca de dez oportunidades desde 1995. Alguns deles não vêem seus pais mais de uma ou duas vezes por ano, exceto durante as férias de verão. "Na maioria dos casos, eles são adolescentes cujos pais fazem duros sacrifícios para pagarem seus estudos, com a esperança de que eles obterão um diploma e conseguirão um bom emprego".As despesas com a escolaridade variam, dependendo da reputação das escolas, de 150 a 1.000 yuans (de R$ 36 a R$ 238, no câmbio atual) por mês. Os alunos mais talentosos poderão um dia ser selecionados pelas autoridades do templo, adquirindo com isso o direito de participarem de uma turnê de espetáculos, de se tornarem instrutores e até mesmo de montarem sua própria escola de kung fu. Mas, as perspectivas mais promissoras em termos de mercado de trabalho que as escolas de Dengfeng oferecem dizem respeito às profissões relacionadas à segurança, à polícia e ao exército.São cada vez mais numerosos os ocidentais que comparecem nas escolas de kung fu para seguirem estágios. Shaolin é um empreendimento bastante lucrativo. "É considerado como um grande negócio pelos chineses", reconhece Frédéric Pinlet. As áreas situadas em volta do mosteiro, repletas de butiques de suvenires, de cibercafés e de hotéis em construção, mais se parecem com um parque de atrações dedicado às artes marciais do que com um local de recolhimento. Apesar do preço, alto para os padrões locais, do ingresso, que custa 100 yuans (cerca de R$ 24,00), o templo, cujo acesso permaneceu proibido para os estrangeiros até 1984, tornou-se um dos pontos turísticos mais badalados da China, com mais de 2 milhões de visitantes em 2007.Entre os próprios chineses, não faltam aqueles que se manifestam para criticar a comercialização desmedida do mosteiro: "De tanto querer acompanhar a evolução do seu tempo, Shaolin está perdendo sua identidade", comentou recentemente o "Diário da Juventude" num editorial indignado. "Não existe nenhum lugar tranqüilo para o Buda dentro de um templo cercado por uma profusão de comércios e de escolas de artes marciais. Em vez de ser um paraíso espiritual, o tempo vem se tornando uma máquina de fabricar dinheiro".Shi Yongxin está pouco se importando com essas críticas. Ele trabalhou sem medir esforços para modernizar Shaolin e fazer da sua empresa comercial, a Shaolin Zhiye, um empreendimento florescente, a tal ponto que ele foi obrigado a desmentir, em abril, os rumores que anunciavam a sua introdução na Bolsa: "O templo de Shaolin não é o que se pode chamar de empresa. Ele não pode ser valorizado e encontra-se numa situação que o deixa na impossibilidade de ir à falência", declarou aquele que a mídia chinesa apelidou de "o abade CEO", um rótulo que ele rejeita.As etapas da modernização do templo se sucederam num ritmo frenético, equivalente ao do crescimento da China. Em 1993, Shi Yongxin tentou o primeiro de uma extensa série de processos judiciários contra um fabricante de presunto que utilizava a marca Shaolin - que está patenteada atualmente em mais de 80 países. Em 1996, ele criou um site oficial numa época em que a Internet estava apenas engatinhando. Em 1999, ele foi entronizado abade e passou a trajar a batina amarela. Atualmente, com idade de 43 anos, ele evita se intrometer nas atividades de kung fu, preferindo apresentar-se como o depositário da "filosofia de Shaolin".Reza a lenda que o kung fu (ou gongfu, o que significa "o homem realizado") foi criado em 527 por um monge budista vindo da Índia, Bodhidharma (Damo para os chineses), que ensinou esta arte aos monges de Shaolin, mas a sua dimensão religiosa mais se parece hoje com uma fina camada de verniz aplicada ali para a circunstância. "O termo de monge-discípulo, que muitos costumam usar, é quase sempre impróprio", assegura Frédéric Pinlet. "É preferível falar em mestres de Shaolin".O abade Shi Yongxin tornou-se o detentor oficial das chaves do budismo zen "made in Shaolin". Após ter constatado que os filmes e as séries televisivas "transmitiam geralmente uma idéia falsa da filosofia de Shaolin", ele lançou uma série de reality show inspirada no modelo de "A Nova Star", no decorrer da qual jovens monges competem entre eles para tornar-se a próxima estrela de um filme de orçamento milionário. A sua mais recente criação é um site de vendas on-line de produtos diversos, da camiseta custando alguns poucos reais até uma caixa de três livros sobre os segredos da medicina e do kung fu, ao preço de 9.999 yuans (cerca de R$ 2.400).Na sua qualidade de primeiro deputado budista da República Popular, Shi Yongxin se defende de ser um monge político: "Eu participei da Assembléia Popular Nacional com o objetivo de proteger os direitos e os interesses do budismo". Ele faz lobby para fazer com que o kung fu de Shaolin seja incluído pela Unesco em sua lista de obras-primas do patrimônio imaterial da humanidade. Aos seus olhos, "a organização dos Jogos Olímpicos reveste uma enorme importância para a nação chinesa. Com eles, as populações do mundo inteiro poderão conhecer o novo rosto da China, após trinta anos de reformas e de abertura".O templo de Shaolin, entretanto, se mantém afastado das competições de artes marciais organizadas durante as Olimpíadas, e principalmente de uma grande demonstração de wushu prevista para ocorrer em Pequim. Os detratores do mosteiro afirmam que os seus representantes teriam corrido riscos de não se mostrarem à altura da sua reputação. Em resposta, Shi Yongxin rebate que o objetivo supremo do kung fu de Shaolin não é a vitória em combate, mas sim o aperfeiçoamento do indivíduo. Pierre de Coubertin (1863-1937), o fundador dos Jogos Olímpicos, teria apreciado. Tradução: Jean-Yves de Neufville
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