Obsessão colonial.
Não se esperava que o estilo civilizado das relações entre as nações admitisse a recorrência a condutas colonialistas sepultadas pela história. Todavia, o Reino Unido, em certas práticas da política exterior, volta aos padrões de sua ultrapassada trajetória como potência marcada pela tutela imposta a várias regiões do mundo. É como se ainda mantivesse sob o tacão das botas opressoras a América do Norte, conquistada em 1607, a primeira colônia inglesa no continente. Não há exagero na afirmação. É assim que acaba de considerar o Brasil no trato de questões relacionadas com a imigração. Para situar o problema, nada melhor do que invocar expressão muito ao gosto do léxico inglês, segundo a qual o uso do cachimbo faz a boca torta. Pois o governo britânico, com certeza sob inspiração das regras ditadas (nos áureos tempos) às nações subjugadas, pretende assumir dentro do Brasil o controle das viagens de brasileiros rumo ao Reino Unido. E deu, sob a forma de virtual ultimato, prazo de seis meses para o país colocar em prática as medidas exigidas. Caso contrário, adverte, quem quiser viajar daqui para lá estará sujeito ao regime de visto de entrada. Jamais se imaginou atitude com tamanha carga de desatino. Em carta assinada pelos ministros David Milliband, das Relações Exteriores, e Jacqui Smith, do Interior, estão alinhados os termos de inacreditável esplendor imperial. Londres quer colocar um policial no Aeroporto Internacional de São Paulo. Caberá a ele fazer a triagem de quem deve ou não ser embarcado para Londres, como também treinar as companhias aéreas brasileiras sobre passaportes e eventuais fraudes. Exige que a embaixada do Brasil na capital inglesa, entre outras obrigações, adote programa de incentivo para o “retorno voluntário” de imigrantes considerados ilegais. Há algo não menos desafiador e ousado. Afirma como dever do governo brasileiro obrigar agências internacionais de turismo a identificar a venda de passagens para “visitantes genuínos”, entre os quais turistas e empresários. Convoca o Ministério da Justiça e a Polícia Federal para a conveniência de entrevistar brasileiros deportados a fim de localizar quem ajuda a emitir documentos e transportar imigrantes ilegais. Pelos canais competentes do Itaramaty e do Ministério da Justiça, o Palácio do Planalto repeliu de forma enérgica, com a declaração de que não admite tutelas, a insolente posição britânica. Os espaços para exame do problema não comportam ordens imperativas, mas levá-lo à mesa das conversações diplomáticas. Se a Londres não interessa senão o atendimento de suas determinações, que estabeleça a regra do visto de entrada. A Brasília caberá usar o critério de reciprocidade válido nas relações internacionais para adotar providência idêntica. Advirta-se, contudo, que o Brasil não é nenhuma daquelas cubatas ocupadas pelos ingleses durante os séculos de expansão colonial. Não há mais clima no mundo para a violação da soberania dos países.
GOVERNO PETISTA DE LULA 09/07/09
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[image: PT 29 Anos]
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